O que o espelho não mostra
Há quem passe a vida inteira diante de um espelho, admirando a própria imagem, sem jamais perceber que, atrás de si, o jardim virou ruína.
O espelho é curioso.
Ele nos devolve a imagem com uma fidelidade quase cruel. Mostra as marcas do tempo, os cabelos que embranquecem, as rugas que chegam sem pedir licença.
Mas há algo que ele não mostra.
O que deixamos para trás.
Talvez por isso seja tão confortável permanecer diante dele. Ali, podemos ajustar a postura, ensaiar um sorriso, escolher o melhor ângulo.
Podemos até acreditar na pessoa que vemos.
Mas basta nos afastarmos um pouco para que outras coisas entrem no campo de visão.
Um jardim abandonado.
Uma porta fechada.
Uma ruína.
E então surge uma pergunta que nem sempre temos coragem de responder:
O que fizemos enquanto estávamos tão ocupados olhando para nós mesmos?
Vivemos tempos curiosos.
Nunca tivemos tantos meios de observar o mundo. E, paradoxalmente, parecemos cada vez mais habilidosos em escolher aquilo que não queremos enxergar.
A injustiça ganha justificativas.
A crueldade recebe outros nomes.
A humilhação vira entretenimento.
E aquilo que deveria nos causar indignação passa a ser discutido como se fosse apenas uma diferença de opinião.
Talvez tenhamos aprendido a relativizar tanto a realidade que já não precisamos negá-la.
Basta torná-la conveniente.
O mais assustador, porém, nem sempre é quem destrói.
É quem observa.
Quem aplaude.
Quem encontra uma explicação confortável para cada pedra arrancada, cada flor pisoteada, cada parede derrubada.
E segue adiante, como se nada tivesse acontecido.
Mas seria fácil demais transformar esta reflexão numa acusação aos outros.
Também temos nossos espelhos.
Também escolhemos ângulos.
Também carregamos contradições que preferiríamos não encontrar.
Afinal, reconhecer a própria imperfeição exige mais do que humildade. Exige coragem para abandonar a imagem que construímos de nós mesmos.
Talvez o ego seja justamente isso: uma tentativa permanente de convencer o mundo — e a nós mesmos — de que somos melhores do que nossas atitudes revelam.
E há uma ironia nessa necessidade de afirmação.
Passamos tanto tempo tentando eternizar nossa imagem que esquecemos de observar aquilo que realmente permanecerá depois de nós.
Porque a vida não nos oferece a imortalidade.
Mas nos permite deixar vestígios.
Podemos olhar para um jardim e pensar:
Alguém plantou isto aqui.
Não precisamos conhecer seu nome. Não precisamos saber quando viveu, quais eram seus sonhos ou quantas vezes suas mãos se feriram ao preparar a terra.
O jardim floresce.
E isso basta.
Mas também podemos olhar para uma ruína e pensar:
Alguém destruiu isto aqui.
Talvez ninguém se lembre de quem derrubou suas paredes.
Talvez a destruição tenha sido lenta, feita de pequenas negligências, silêncios e indiferenças.
Ainda assim, suas consequências permanecem.
Eternizar, portanto, não é necessariamente deixar algo belo.
Também podemos perpetuar feridas.
Talvez a verdadeira medida da nossa passagem pelo mundo não esteja na quantidade de pessoas que conheceram nosso nome, mas naquilo que nossas escolhas permitiram florescer — ou deixaram morrer.
Não quero ser indispensável.
Não quero que as coisas parem quando eu partir.
Quero que continuem.
Que alguém encontre uma solução e perceba que houve cuidado.
Que utilize um espaço e sinta que alguém pensou na sua experiência.
Que contemple um jardim sem precisar saber quem o plantou.
Porque não é necessário preservar o nome de quem semeou para que uma flor continue tendo beleza.
Mas, para isso, precisamos aprender a nos afastar do espelho.
Não para deixar de reconhecer quem somos.
E sim para enxergar aquilo que existe além de nós.
Olhar para trás.
Reconhecer os jardins.
Enfrentar as ruínas.
E, quando necessário, admitir que algumas delas também carregam as marcas das nossas mãos.
Porque o espelho pode nos mostrar quem somos.
Mas é o que deixamos para trás que revela como escolhemos viver.

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