O Amor Dói?

 

Há algum tempo venho me perguntando se o amor dói.

Não o amor dos romances, apenas. Nem aquele que costuma habitar os poemas, as músicas e as fotografias emolduradas sobre os móveis da sala.

Falo do amor em todas as suas formas.

O amor que nasce entre amigos.

O amor que une pais e filhos.

O amor silencioso dos avós.

O amor que escolhe permanecer.

O amor que simplesmente se doa.

E, quanto mais penso sobre isso, mais percebo que talvez a resposta seja sim.

O amor dói.

Mas não da maneira que imaginamos.

Ele não dói porque seja falho.

Não dói porque seja cruel.

Não dói porque tenha vindo ao mundo para nos ferir.

O amor dói porque nos torna vulneráveis.

Quem ama entrega.

Quem ama permite que outra vida encontre espaço dentro da sua.

E, a partir desse instante, a alegria do outro também nos alegra.

Mas sua dor também nos alcança.

Talvez por isso um pai sofra ao ver um filho enfrentar suas batalhas.

Talvez por isso uma mãe passe noites acordada por preocupações que ninguém vê.

Talvez por isso uma amizade verdadeira sobreviva aos anos, mas não escape da saudade.

Talvez por isso algumas despedidas pareçam levar consigo um pedaço daquilo que éramos.

Porque o amor cria raízes.

E toda raiz deixa marcas no solo quando precisa partir.

Mas existe algo curioso sobre a dor.

Passamos a vida tentando evitá-la.

Entretanto, algumas das maiores curas que conhecemos passam justamente por ela.

A pele dói antes de cicatrizar.

Os músculos doem antes de se fortalecer.

A alma dói antes de compreender.

Talvez o coração também.

Talvez existam dores que não chegam para destruir.

Chegam para transformar.

Há momentos em que amamos tanto alguém que desejamos sua permanência.

Queremos mais um abraço.

Mais uma conversa.

Mais uma história contada à mesa.

Mais um domingo.

Mais um aniversário.

Mais um pouco de tempo.

Mas há momentos em que o amor assume uma forma diferente.

Uma forma mais madura.

Mais silenciosa.

Mais difícil.

Aquela que nos ensina que permanecer nem sempre é o maior gesto de amor.

Às vezes, amar é aceitar.

Aceitar que o cansaço chegou.

Aceitar que a luta terminou.

Aceitar que a paz pode ser um presente maior do que a permanência.

E então algo estranho acontece.

As lágrimas continuam existindo.

A saudade também.

Mas, entre elas, surge um pequeno conforto.

Como uma luz atravessando uma janela ao fim da tarde.

Porque compreendemos que a dor de quem fica já não é maior do que o descanso de quem partiu.

E, por mais contraditório que pareça, isso também é amor.

Talvez seja uma de suas formas mais profundas.

Porque amar nunca foi possuir.

Amar sempre foi cuidar.

Mesmo quando cuidar significa abrir as mãos.

No fim, percebo que o amor realmente dói.

Mas não é uma dor vazia.

É uma dor que revela importância.

Uma dor que testemunha significado.

Uma dor que existe porque algo precioso passou por nós.

A saudade, afinal, não é a ausência do amor.

É a permanência dele.

É o amor encontrando uma nova maneira de existir.

Porque as pessoas que amamos deixam de habitar apenas os lugares.

Passam a habitar as memórias.

Os gestos.

Os ensinamentos.

As histórias repetidas tantas vezes que já fazem parte de quem somos.

O corpo parte.

A voz silencia.

A cadeira fica vazia.

Mas o amor permanece.

E talvez seja por isso que ele cure.

Não porque nos poupe da dor.

Mas porque dá sentido a ela.

Porque, entre as chegadas e as despedidas, entre os encontros e as ausências, entre as vírgulas da vida e os pontos que inevitavelmente encerram alguns capítulos, o amor continua escrevendo sua história dentro de nós.

E, enquanto isso acontecer, ninguém parte por completo.

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