E se a luz em nós forem trevas?
Há algo assustador acontecendo em nossa sociedade. E não me refiro apenas às disputas políticas, às guerras ou às injustiças que atravessam gerações. Refiro-me à naturalidade com que passamos a celebrar o sofrimento daqueles que pensam diferente de nós.
Pessoas comemoram o desemprego alheio, incentivam boicotes e transformam adversários políticos em inimigos que merecem ser punidos. Tudo isso, muitas vezes, acompanhado de discursos sobre moralidade, justiça e até mesmo fé.
Mas que espírito estamos alimentando?
Durante séculos, cristãos procuraram compreender os sinais do Apocalipse. A marca da besta, descrita na testa e na mão direita, tornou-se objeto de inúmeras interpretações. Muitos procuram uma marca física, uma tecnologia ou um acontecimento futuro.
Mas e se também precisássemos olhar para o significado espiritual desses símbolos?
A testa pode representar nossa consciência. A mão, nossas ações. Aquilo que pensamos, acreditamos e praticamos.
O Apocalipse descreve um poder capaz de controlar quem pode comprar ou vender. E, embora não possamos simplesmente identificar acontecimentos atuais como o cumprimento dessa profecia, é impossível ignorar a semelhança entre esse mecanismo de exclusão e as tentativas humanas de punir economicamente aqueles que não compartilham determinadas convicções.
A história já nos mostrou aonde a intolerância pode conduzir uma sociedade.
Jesus advertiu que surgiriam falsos profetas, capazes de enganar, se possível, até os escolhidos. E talvez o engano mais perigoso seja aquele que nos faz acreditar que estamos defendendo a verdade enquanto abandonamos o amor.
Ele também disse:
"Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!" — Mateus 6:23.
Eis o perigo: confundir nossas convicções com a própria vontade de Deus.
Na parábola do joio e do trigo, os servos quiseram arrancar aquilo que julgavam indesejável. Mas o senhor da plantação ordenou que ambos crescessem juntos até a colheita.
Quem nos deu autoridade para decidir definitivamente quem merece permanecer?
Ao lado de Jesus, na cruz, estava um homem condenado por seus crimes. Nos últimos instantes de sua vida, ele reconheceu seus erros e encontrou misericórdia.
Se tivéssemos eliminado todas as possibilidades daquele homem, quem poderia prever seu arrependimento?
E há ainda a parábola do fariseu e do publicano. Um agradecia por não ser como os outros. O outro apenas suplicava: "Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!"
Jesus disse que foi o segundo quem voltou justificado.
Talvez estejamos tão ocupados procurando a marca da besta na testa dos outros que esquecemos de examinar as obras das nossas próprias mãos.
O espírito do anticristo, conforme podemos refletir a partir das Escrituras, não precisa ser compreendido apenas como uma ameaça distante. A oposição aos ensinamentos de Cristo também pode se manifestar quando o ódio, a arrogância e a crueldade encontram espaço em nossas atitudes.
E isso exige vigilância de todos nós.
Porque a história não nos ensina apenas a reconhecer os erros de quem veio antes. Ela nos convida a não reproduzi-los.
Jesus não disse que reconheceriam seus discípulos pela capacidade de identificar inimigos, interpretar profecias ou vencer disputas ideológicas.
Ele disse que os reconheceriam pelo amor.
De que adianta conhecer todos os mistérios do Apocalipse, se já não conseguimos reconhecer Cristo naquele que precisa da nossa misericórdia?
Antes de perguntar quem carrega a marca da besta, talvez devêssemos perguntar:
Que marcas nossas atitudes estão deixando no próximo?

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