Entre Tempos #02 — A vida é como é

 



Uma releitura, dez anos depois, sobre fé, tragédia e a urgência da misericórdia.

Escrevi isso em 17 de setembro de 2016.

Dois dias antes, o Brasil havia sido surpreendido pela morte do ator Domingos Montagner.

Mas o que me levou a escrever não foi apenas a tragédia.

Foi o que algumas pessoas decidiram fazer com ela.

Dez anos depois, reencontro estas palavras.

E algumas delas ainda me inquietam.


A vida é como é

Há mais ou menos uns quatro anos, deixei de me interessar pela TV aberta e pela TV a cabo. Hoje, prefiro on demand. Acho mais prático em um mundo em que o tempo urge. Precisamos otimizar nossas prioridades.

Não acompanho, por fim, as telenovelas atuais e pouco me interesso por seus enredos. Não por descaso total, mas, como disse, porque me dedico a outras prioridades. O que me leva hoje a escrever este texto está correlacionado ao último acontecimento da semana que movimentou o Brasil. Uma tragédia para a família, um alerta para os brasileiros e uma realidade da vida. Morrer é uma condição dada a todos os seres vivos — por motivos diversos e em idades também diferentes. Não há lógica para nossa vã filosofia; ali, todos tomam conhecimento do que nos espera.

Domingos Montagner parte desta terra para uma nova história, onde o enredo será escrito por Aquele que nos proporcionou o dom da vida. E a vida, mesmo estranha por alguns ângulos, no final faz sentido. O drama que este ator desempenhou na novela tornou-se uma tragédia literal. E isso assombrou algumas pessoas. Outros buscaram motivos para denegrir a imagem do ator que, apesar de sua profissão, é um ser humano. É um irmão em Cristo, e quem nega o próprio irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não se pode ver. Com olhos carnais, claro, porque Deus pode ser visto de várias formas; depende da sua fé e disposição. Mas esta é outra história. Outros fizeram piadas. O modo de absorver uma calamidade tornou-se, para os que ficaram, um emaranhado de sentimentos um pouco confusos entre diversos grupos.

Mas algo me chamou a atenção no fim de semana: um texto no qual se dizia que, por causa das bruxarias feitas nas novelas e por ele ser um exu — ou seja lá qual fosse o adjetivo usado naquele contexto —, tudo aquilo representava o castigo de Deus. A frase inicial do texto era: “Com Deus não se brinca”.

E realmente, com Deus não se brinca!

Tenho visto, nestes últimos tempos, uma legião de pessoas levadas por todo vento de doutrina e se esquecendo da principal mensagem do Evangelho de Cristo. O Espírito Santo tem sido confundido com um matador, um assassino daqueles que ainda não se arrependeram, e tomou lugar nas denominações cristãs espalhadas pelo mundo. Estão confundindo “tomar o Reino pela força do amor” com “tomar o Reino pela força da violência e da discriminação”. Os valores mudaram, mas foi predito que, nos fins dos tempos, o amor se esfriaria de quase todos. E já estamos vendo isso acontecer. Fico sem entender como usam a tragédia humana para justificar seus atos de desamor contra o próximo.

Toda tragédia é castigo de Deus para os que não fazem parte do seu clã, enquanto a tragédia na vida deles é “provação de Deus”. Ensinam o contrário da Palavra, que diz: Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta. Somos provados pelas nossas próprias concupiscências. O mal das denominações é que o poder de falar está sendo usado contra o Reino de Cristo. E muitos ainda não perceberam o abismo que os espera à frente.

Um pouco de fermento leveda toda a massa. Parece que o Evangelho foi trocado pelas bênçãos, pela prosperidade e por muitas outras coisas, embora Jesus tenha dito: “Buscai primeiro o Reino dos Céus, e todas as coisas vos serão acrescentadas”. Mas o Reino dos Céus não é mais prioridade. Misericórdia, só para os de “carteirinha cristã”. Bênçãos, só para os afortunados que despejam “fortunas” no gazofilácio. Cura, só para os “domingueiros” de plantão. Onde está o “orai pelos que vos perseguem”? Alimentai o faminto, dai de beber ao sedento?

Para estes, o “castigo divino” cairá sobre suas cabeças e eles serão exterminados. Não há mais amor pelo próximo. O preconceito e as diferenças étnicas são suficientes para lançá-lo ao inferno. Jesus disse: “Se os teus olhos forem luz, grande luz haverá; mas, se forem trevas, quão grandes serão as trevas!”.

Se há bruxaria na novela, não é de se espantar, porque todos pecaram e carecem da glória de Deus. Em um mundo corrompido, onde somos subjetivos — ou seja, conhecedores do bem e do mal —, precisamos compreender que nossas obras carregam medidas boas e medidas más. E isso se reflete em todos os campos da vida. O justo viverá pela fé. Preciso compreender que há uma guerra acontecendo em mim, que faz com que, por vezes, eu aja de modo contrário ao que se espera.

Assim disse Paulo: “O mal que eu não quero fazer, este eu faço, Senhor. Mas o bem que eu quero fazer, não consigo, meu Deus”. A Palavra também diz: a justa medida. Faça com que o bem seja tão grande em suas obras até que o mal se torne uma ignomínia no seu ser e você se sinta envergonhado de praticá-lo.

Volte ao primeiro amor, busque o Reino dos Céus e coma da árvore da vida, que dá os seus frutos de tempos em tempos para aqueles que esperam. Ora, quais são os frutos do Reino? São os mesmos frutos do Espírito Santo: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão e domínio próprio.

Até quando serás escravo do mal? Se há alguém entre vós ensinando tamanha barbárie, que se sinta envergonhado. Não há necessidade de abandonar a congregação nem de expulsar alguém do Corpo de Cristo. A verdadeira conversão é o arrependimento e a regeneração do homem para que seja nova criatura. Disse Jesus: “Antes de apontar o cisco no olho do teu irmão, tire primeiro a trave do seu”.

Particularmente, não haveria grande necessidade de usar “tamanhas letras” para expor o que penso sobre o que li na mensagem intitulada “Com Deus não se brinca”. Mas, nos tempos atuais, em que a informação é transferida on-line para milhares de pessoas conectadas pela “rede” que está nos cercando por todos os lados, sinto a necessidade de, quem sabe, abrir os olhos de alguns para o verdadeiro perigo relacionado à maneira como tratam a fé.

Para esses grupos, que divulgam e alimentam a alma de milhares de pessoas com mensagens que têm “aparência de piedade, mas negam a eficácia dela”, Deus é um ser egocêntrico que necessita diariamente da nossa adoração; caso contrário, fica nervoso e começa a castigar o povo. O deus desse povo gosta muito quando você leva o seu dinheiro para a “casa do tesouro” — ou seja, os templos religiosos — e tem Satanás como querubim da guarda para aplicar a justa medida de castigos a quem não contribuir.

Esse deus me lembra muito uma passagem na qual o diabo diz a Jesus: “Se, prostrado, me adorares, o mundo te darei”. Mal sabia o diabo que o mundo é passageiro e não há outro dono senão um: o Pai. Tudo passa. Só Deus permanece imutável.

Então, caros amigos, cuidado com o deus deste século, com seus prodígios e maravilhas, porque deste Jesus diz: “Vem o príncipe deste mundo, mas ele não tem nada em mim”.


Dez anos depois

Eu tinha 32 anos quando escrevi essas palavras.

Estava indignado.

Não apenas com a morte de um homem, mas com a facilidade com que algumas pessoas transformavam a dor de uma família em argumento religioso.

Alguém havia morrido.

E, antes mesmo que o silêncio encontrasse lugar, já havia quem procurasse culpados, pecados, símbolos e sentenças.

“Toda tragédia é castigo de Deus para os que não fazem parte do seu clã. Enquanto que a tragédia da vida deles é ‘provação de Deus’.”

Dez anos depois, esta ainda é a frase que mais me atravessa.

Porque ela não fala somente daquele episódio.

Fala de uma medida que muda conforme a pessoa que sofre.

Quando a dor bate à nossa porta, pedimos oração, compreensão e misericórdia.

Quando bate à porta do outro, algumas vezes procuramos uma explicação que nos permita julgá-lo.

Para nós, provação.

Para eles, castigo.

Para nós, um propósito que ainda não compreendemos.

Para eles, uma culpa que julgamos conhecer.

Talvez essa seja uma das formas mais perigosas de desamor: aquela que aprende a falar em nome de Deus.

Hoje, relendo o texto, reconheço a coragem daquele homem de 32 anos. Ele não aceitou calado que a fé fosse usada para ferir. Tentou defender o Evangelho que conhecia — um Evangelho de amor, arrependimento, acolhimento e transformação.

Mas também reconheço sua indignação.

Em alguns momentos, enquanto denunciava o julgamento, ele próprio se aproximava da linguagem da condenação.

Falava em abismos.

Respondia à dureza com dureza.

Talvez ainda estivesse aprendendo algo que hoje me parece essencial:

não basta defender a misericórdia.

É preciso praticá-la até mesmo diante de quem se esqueceu dela.

Isso não significa permanecer em silêncio diante do preconceito, da violência religiosa ou da exploração da fé. Misericórdia não é cumplicidade. Amor não é ausência de posicionamento.

Mas é possível denunciar o desamor sem desejar a destruição de quem o pratica.

É possível confrontar uma ideia sem negar a humanidade de quem a repete.

É possível defender a fé sem transformá-la em arma.

“Com Deus não se brinca.”

A frase que deu origem à minha indignação ainda me provoca.

Talvez realmente não se brinque com Deus.

Mas também não se deve usá-lo.

Não se deve usar o nome de Deus para explicar o inexplicável, satisfazer preconceitos, celebrar a dor alheia ou conferir aparência sagrada à crueldade.

Não se deve fazer de Deus um personagem criado à imagem das nossas intolerâncias — alguém que ama quem amamos, rejeita quem rejeitamos e pune, oportunamente, aqueles que já havíamos condenado.

O Deus que precisa odiar os meus inimigos para provar que está do meu lado talvez diga mais sobre mim do que sobre Ele.

Em 2016, as redes já nos cercavam por todos os lados.

Em 2026, elas parecem ainda mais rápidas.

A tragédia acontece, a imagem circula, a sentença é publicada e o julgamento se espalha antes que a família tenha tempo de compreender a própria perda.

Mudaram as plataformas.

Mudaram os formatos.

Talvez não tenha mudado nossa pressa em julgar.

Por isso, dez anos depois, a pergunta permanece:

em que momento a fé deixa de ser abrigo e se transforma em tribunal?

Talvez seja quando a certeza importa mais do que a compaixão.

Quando explicar a dor se torna mais urgente do que acolher quem sofre.

Quando os frutos do Espírito são recitados, mas deixam de ser reconhecidos na maneira como tratamos o próximo.

Naquele texto, procurei esses frutos: amor, paz, bondade, fé, mansidão e domínio próprio.

Hoje percebo que não basta procurá-los nos outros.

Preciso procurá-los também em mim.

Naquilo que digo.

Na forma como reajo.

Na maneira como discordo.

E até no modo como confronto aqueles que fizeram da fé um instrumento de exclusão.

A vida é como é.

Frágil.

Imprevisível.

Às vezes, difícil demais para caber nas respostas prontas que inventamos.

Talvez nem toda dor precise de uma explicação.

Talvez algumas precisem apenas de silêncio, presença e misericórdia.

Entre a fé que condena

e a fé que acolhe,

existe uma escolha.

Entre o homem que escreveu indignado

e aquele que hoje relê suas próprias palavras,

existem dez anos.

Mas algumas perguntas

ainda esperam resposta.


Texto original escrito em 17 de setembro de 2016. Nesta republicação, foram realizados apenas ajustes de ortografia, pontuação e fluidez, preservando-se o conteúdo e o sentido do texto.

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